Crônica: O homem e seu cachorro

O homem e seu cachorro

*Éber Sander

 

Para que serve o chão? Para andar, para correr, talvez você pense isso… quem sabe até seja para isso… Mas creia-me, alguns usam para morar…Sim, para morar!

Jogados ao chão. Em pleno meio-dia de uma segunda-feira, um sol de verão, rachando a cabeça daqueles que não estão jogados ao chão. Em plena avenida, cercada de mansão. O homem e seu cachorro estão jogados ao chão, babando, sonhando, pedindo para morrer, jogados ao chão.

Os outros, os que não sabem o que é estar jogado ao chão, também não sentem os verdadeiros raios de um sol de verão. Nunca estiveram jogados ao chão. Quem sabe um dia, não estarão… Afinal, o mundo não é redondo à toa, deve haver algum sentido nisso…

Os passantes fazem o que lhe é devido: passam. Passam e passam. Sequer olham para o homem e seu cachorro jogados ao chão.

Já passam das quinze horas e os dois continuam jogados ao chão. Passaram muitos, apenas isso, passaram. Não sabem eles, que os verdadeiros culpados pelo cachorro e pelo homem estarem jogados ao chão, são eles, que caminham, que passam ao lado, que pisam no homem, no rabo do cachorro, que permanecem jogados ao chão.

Dezessete horas e chamaram o camburão, onde já se viu?! dois vagabundos jogados ao chão, em uma avenida, repleta de mansão. Isso é uma vergonha, então chamaram o camburão. Coitado do homem, coitado do cão, coitado do cachorro do homem que chamou o camburão. Saberá ele o que é estar jogado ao chão?! Não! Ele não sabe, pois ele mora naquela mansão, onde o homem e seu cachorro permaneciam jogados ao chão.

Muito bate boca, muito blá-blá-blá, muito latido, de lá, e de cá. O cachorro do homem da mansão latiu feito cão, e que os cães me perdoem por tal comparação. Que maldade do escritor… Comparar o da mansão com o cão.

O homen, o do camburão, disse não haver sentido em levar o cão e o homem, o do chão, para a prisão. Tal fato deixou o cachorro do homem da mansão babando feito um cão raivoso. Como não?! São uns emprestáveis, só fazem sujar minha calçada e minha cidade, dizia ele, cheio de pompa e egocentrismo.

Não, meu senhor, não vou levá-los. Não posso levá-los, nem o homem, nem o cão, eles nada fizeram, disse o do camburão.

Sorrindo, o cão latiu satisfeito, parecendo sentir o tamanho da raiva que o homem da mansão estava sentindo. Como ele latiu satisfeito… como latiu…latiu e sorriu feito criança…

Já passavam das dezoito horas e o cachorro e seu homem, ou o homem e seu cachorro começavam a deixar aquela avenida, aquela calçada, aquele cachorro da mansão, afinal, eles precisavam se alimentar, podem até não ter onde morar, mas o estômago está lá e o cachorro da mansão não iria servir da sua comida a eles…

Amanhã, a história se repete em outra calçada, em outra avenida, rua, mansão… Amanhã, eles conhecerão outros homens cachorros e que os cães continuem a me perdoar por tal comparação. Pobre do cão… o da mansão!

 

A crônica: “O homem e seu cachorro” ficou em terceiro lugar no Prêmio Acrísio de Camargo 2007, de Indaiatuba – SP.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Filed under 1

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s